O que é Dinheiro?
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O que é Dinheiro?

Iniciante
3mo ago
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Introdução

O dinheiro é sem dúvida um dos pilares mais importantes da civilização moderna. Por milênios, serviu como uma espécie de linguagem de valor, facilitando o comércio entre indivíduos e permitindo que eles armazenassem o produto de seu trabalho.

De um modo geral, a definição de dinheiro é algo que é aceito como pagamento por bens e serviços. Sociedades em todo o mundo geraram muitos tipos diferentes de dinheiro – tantos, que é difícil categorizar todos eles de maneira organizada. 

Neste artigo, discutiremos a moeda-mercadoria, o dinheiro representativo e o dinheiro fiduciário


Antes do dinheiro: escambo

Escambo refere-se ao ato de trocar bens ou serviços por outros bens ou serviços. Curiosamente, isso também pode ser observado em outros contextos da vida. Espécies nos reinos vegetal e animal fazem "acordos" – relações simbióticas – em que ambos se beneficiam das ações uns dos outros. Por exemplo, uma espécie de Acácia (Vachellia cornigera) fornece alimento e abrigo para formigas em troca de proteção contra parasitas. Zebras e rinocerontes permitem que pássaros se alimentem dos carrapatos presos em suas peles.

Naturalmente, os seres humanos têm uma compreensão diferente e mais sofisticada de valor do que as espécies citadas. Muito antes do surgimento do dinheiro como conhecemos atualmente, já entendiamos a possibilidade de troca de nossos produtos pelos produtos de outros.

É muito simples. Suponha que você tenha um casaco e sua vizinha tenha maçãs. Ela está com frio e você está com fome. Você entrega o casaco em troca de vinte maçãs. Vocês dois conseguiram o que queriam através de uma troca.

Infelizmente, nem sempre será tão simples. Eventualmente, você pode querer mais maçãs, mas o novo casaco da sua vizinha vai durar alguns anos. Ela pode não querer negociar novamente. Ao mesmo tempo, ela pode passar por algo parecido. Sua vizinha agora precisa comprar gasolina, mas o dono do posto é alérgico a maçãs e não as aceita como troca.

Esse fenômeno é conhecido, em economia, como coincidência de desejos . O escambo funciona bem quando você tem algo que sua contraparte deseja e vice-versa. Entretanto, ele falha quando as partes não precisam de bens pertencentes à outra.


Moeda-mercadoria (commodity money)

Commodities são matérias-primas úteis de alguma forma (alguns dizem que possuem um valor intrínseco). Essa definição abrange uma grande variedade de coisas – desde metais como ouro, prata e cobre a consumíveis como trigo, café e arroz.

O conceito de moeda-mercadoria (commodity money) envolve o uso de mercadorias como dinheiro. Você provavelmente não conseguiria usar petróleo para comprar algo em uma loja local, mas ao longo da história, tivemos vários exemplos de matérias-primas sendo usadas como moeda de troca.

Por exemplo, o tabaco foi declarado como moeda de troca legal na Virgínia, nos anos 1600. Como Nick Szabo descreve em seu influente trabalho Shelling Out: The Origins of Money, tribos nativas americanas usavam wampum (acessórios feitos de conchas de moluscos) e outras conchas como meio de troca. Como o tabaco na Virgínia, essa mercadoria também foi adotada como moeda legal durante décadas.

Aparentemente, a negociação de commodities pode não parecer muito diferente das economias de escambo. Afinal, se você tem um livro e o oferece em troca de arroz, não seria essencialmente a mesma coisa?

De forma funcional, sim, mas a moeda-mercadoria atua como um meio de troca. Nesse cenário, você teria a expectativa de que o arroz fosse amplamente aceito como meio de pagamento de bens ou serviços. Portanto, diferentemente das economias de escambo, nas quais você troca bens ou serviços por outros bens ou serviços, o arroz seria um meio de troca aceito em várias outras negociações.

Portanto, você estaria inclinado a calcular o valor do seu livro, com base no que você poderia comprar com arroz. Você aceita arroz, não necessariamente porque vai comê-lo, mas porque pode trocá-lo por outros produtos. Se a mercadoria em questão é prolífica, ela também pode servir como uma unidade de conta – algo que você usa para avaliar o preço de outros bens. Nesse cenário, a quantia que você paga por um café poderia ser medida em quilogramas de arroz.

A moeda-mercadoria soluciona o problema de coincidência de desejos que existe no escambo. Isso ocorre porque você pode aceitar o pagamento em moeda-mercadoria e usá-la em outra negociação posterior.

Metais preciosos, como ouro e prata, são talvez as formas mais conhecidas de moeda-mercadoria. O ouro persistiu nas civilizações, usado como dinheiro e como metal industrial. Ainda hoje, moedas e barras de ouro são consideradas excelentes reservas de valor. Investidores depositam suas riquezas em metais preciosos para poder acessá-las posteriormente. Existem muitas razões pelas quais o ouro é tão valorizado – discutimos sobre as funções do dinheiro que o ouro cumpre no artigo O Bitcoin é uma Reserva de Valor?

As commodities não desapareceram totalmente. No entanto, como moedas, elas foram amplamente substituídas por outras formas de dinheiro.


Dinheiro representativo

A moeda-mercadoria foi certamente uma melhoria em relação ao sistema de escambo, mas ainda apresenta desvantagens, principalmente se considerarmos o nível de conveniência. Embora você possa colocar um punhado de moedas de ouro e prata nos bolsos e usá-las para fazer compras, esse conceito não é válido para uso em escalas maiores. 

Atualmente, você se imagina fazendo compras de maior valor usando moedas? Para se ter uma ideia, se você quiser comprar um bitcoin por 8.000 euros, precisaria carregar aproximadamente 60 kg de moedas de 1 euro.

Depois da moeda-mercadoria, veio o dinheiro representativo – uma alternativa muito mais portátil, atrelada às commodities/mercadorias. O dinheiro representativo surgiu em diferentes lugares do mundo, em diferentes momentos. Essencialmente, envolve a existência de um emissor central, que produz certificados que podem ser resgatados por uma certa quantidade de uma mercadoria. 

Em vez de carregar prata no bolso, você pode levar pedaços de papel que comprovam sua posse de prata. A qualquer momento, você pode ir ao emissor e trocar os papeis por prata real. Como alternativa, você pode entregá-lo a alguém como pagamento e ele mesmo poderá fazer essa troca. Se você conhece as stablecoins, é essencialmente o mesmo princípio.

Houveram casos de empresas privadas que emitiram moedas-mercadoria, mas isso foi feito em uma escala muito maior pelos bancos centrais. Você provavelmente conhece o Gold Standard (padrão-ouro), uma política adotada por muitos governos em que as moedas nacionais eram atreladas ao ouro. Parece algo distante do sistema em vigor atual, mas há menos de um século, você podia levar dinheiro em papel ao banco e trocá-lo por metais preciosos.

Do ponto de vista econômico, isso trouxe alguns benefícios importantes. Tanto que o padrão-ouro ainda é um termo usado para descrever algo que supera outras alternativas. A primeira vantagem foi que, apesar do aumento da intervenção do governo, a moeda não foi degradada pela inflação. Os governos não podiam emitir notas que excedessem a quantia que estavam mantendo – pelo menos em tese. Infelizmente, foi fácil (e interessante) para os bancos, operar uma política de reserva fracionada, onde eles criaram mais notas do que ouro em estoque.

O padrão-ouro permitia que as pessoas negociassem com ouro, sem a inconveniência de carregar barras de ouro ou de dividi-las para fazer compras.

Outra vantagem desse sistema monetário é que o ouro sempre foi reconhecido internacionalmente. Se as economias domésticas de um governo fossem baseadas no ouro, os países com a política do padrão-ouro poderiam negociar com mais facilidade um recurso que é valorizado globalmente.



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Dinheiro fiduciário

O dinheiro representativo não é mais a forma dominante de dinheiro. A morte do padrão-ouro levou à adoção global de um novo tipo de moeda – uma moeda que não tem relação com as commodities. 

Resumidamente, fiat (moeda fiduciária) é dinheiro emitido por um governo (o termo fiat  deriva do latim e significa por decreto). Dólares americanos, pesos mexicanos, ienes japoneses e rúpias indianas são exemplos de moedas fiduciárias usadas atualmente.

O valor da moeda fiduciária é altamente dependente das decisões de governos e bancos centrais. Essencialmente, uma nota fiduciária é um pedaço de papel que só tem valor porque os órgãos governamentais afirmam isso.

Vale notar que, embora o decreto na forma de papel-moeda seja, às vezes, considerado uma invenção recente, ele se originou na China no século XI. Também foi usado na Europa e nas Américas do século XVII.

Ao contrário dos outros tipos de dinheiro que discutimos até agora, a moeda fiduciária não tem um elemento de escassez. É trivial produzir papel-moeda a partir de materiais disponíveis, ao contrário de commodities agrícolas que levam tempo para crescer ou metais preciosos que precisam ser encontrados e extraídos. Sem essas limitações, entidades como a Federal Reserve podem criar dinheiro "do nada".

Dependendo do ponto de vista, essa é a maior força ou a maior fraqueza do dinheiro fiduciário. Os defensores dos sistemas de moeda fiduciária argumentam que a capacidade de inflacionar a oferta monetária oferece aos governos mais flexibilidade para enfrentar crises financeiras ou gerenciar a economia em geral. Além disso, por controlar o mercado monetário e as taxas de juros, o governo tem um alto grau de controle sobre os sistemas financeiros do país.

Curiosamente, as pessoas que são contrárias à moeda fiduciária, apresentam o mesmo argumento, embora sob outra perspectiva. Uma das principais críticas à política monetária do governo é que a inflação, corrói lentamente a riqueza de quem armazena moedas fiduciárias. Esses sistemas políticos podem passar por períodos agressivos de inflação (hiperinflação), que essencialmente desvaloriza a moeda completamente e pode causar enormes danos econômicos e sociais.


Qual a categoria das criptomoedas?

O Bitcoin foi rotulado tanto como dinheiro digital, quanto como ouro digital. Por um lado, o Bitcoin apresenta muitas das características do dinheiro vistas em commodities (fungibilidade, divisibilidade, portabilidade), tornando-o um meio ideal de troca.

Por outro lado, o Bitcoin é cada vez mais valorizado como reserva de valor. Os defensores do Bitcoin como ouro digital acreditam que sua política de fornecimento de deflação (ou melhor, desinflação) o ajuda a reter o poder de compra ao longo do tempo. Isso contrasta fortemente com o dinheiro inflacionário como o dólar americano, que pode ser desvalorizado a critério do sistema da Federal Reserve.

Superficialmente, as criptomoedas parecem se enquadrar na categoria de moeda-mercadoria (commodity money). Embora elas não tenham nenhum uso fora de seus protocolos, eles não são atreladas à nada nem emitidas por entidades governamentais. O valor do dinheiro, no que diz respeito às moedas digitais, é definido através da avaliação dada do mercado livre.


Considerações finais

Conforme discutido, o dinheiro apresenta diversas formas. Muitos estão acostumados a pensar em valor considerando suas moedas fiduciárias nacionais, mas elas são invenções relativamente recentes. Os aplicativos de pagamento que você usa hoje são o resultado de milhares de anos de evolução dos sistemas monetários.

As criptomoedas são um experimento promissor no próximo capítulo da história do dinheiro. Se o Bitcoin ou outras criptomoedas fossem amplamente adotadas, elas seriam os primeiros exemplos reais de commodities digitais. Só o tempo poderá dizer se as criptomoedas serão capazes de substituir a atual supremacia das moedas fiduciárias.