O que é Dinheiro?
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O que é Dinheiro?

O que é Dinheiro?

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Publicado em Jun 29, 2020Atualizado em Dec 28, 2022
9m

Conte√ļdo


Introdução

O dinheiro √© sem d√ļvida um dos pilares mais importantes da civiliza√ß√£o moderna. Por mil√™nios, serviu como uma esp√©cie de linguagem de valor, facilitando o com√©rcio entre indiv√≠duos e permitindo que eles armazenassem o produto de seu trabalho.

De um modo geral, a defini√ß√£o de dinheiro √©¬†algo que √© aceito como pagamento por bens e servi√ßos. Sociedades em todo o mundo geraram muitos tipos diferentes de dinheiro ‚Äď tantos, que √© dif√≠cil categorizar todos eles de maneira organizada.¬†
Neste artigo, discutiremos a moeda-mercadoria, o dinheiro representativo e o dinheiro fiduciário. 


Antes do dinheiro: escambo

Escambo refere-se ao ato de trocar bens ou servi√ßos por outros bens ou servi√ßos. Curiosamente, isso tamb√©m pode ser observado em outros contextos da vida. Esp√©cies nos reinos vegetal e animal fazem "acordos" ‚Ästrela√ß√Ķes simbi√≥ticas ‚Äď em que ambos se beneficiam das a√ß√Ķes uns dos outros. Por exemplo, uma esp√©cie de Ac√°cia (Vachellia cornigera) fornece alimento e abrigo para formigas em troca de prote√ß√£o contra parasitas. Zebras e rinocerontes permitem que p√°ssaros se alimentem dos carrapatos presos em suas peles.

Naturalmente, os seres humanos têm uma compreensão diferente e mais sofisticada de valor do que as espécies citadas. Muito antes do surgimento do dinheiro como conhecemos atualmente, já entendiamos a possibilidade de troca de nossos produtos pelos produtos de outros.

√Č muito simples. Suponha que voc√™ tenha um casaco e sua vizinha tenha ma√ß√£s. Ela est√° com frio e voc√™ est√° com fome. Voc√™ entrega o casaco em troca de vinte ma√ß√£s. Voc√™s dois conseguiram o que queriam atrav√©s de uma troca.

Infelizmente, nem sempre será tão simples. Eventualmente, você pode querer mais maçãs, mas o novo casaco da sua vizinha vai durar alguns anos. Ela pode não querer negociar novamente. Ao mesmo tempo, ela pode passar por algo parecido. Sua vizinha agora precisa comprar gasolina, mas o dono do posto é alérgico a maçãs e não as aceita como troca.

Esse fen√īmeno √© conhecido, em economia, como¬†coincid√™ncia de desejos . O escambo funciona bem quando voc√™ tem algo que sua contraparte deseja e vice-versa. Entretanto, ele falha quando as partes n√£o precisam de bens pertencentes √† outra.


Moeda-mercadoria (commodity money)

Commodities s√£o mat√©rias-primas √ļteis de alguma forma (alguns dizem que possuem um¬†valor intr√≠nseco). Essa defini√ß√£o abrange uma grande variedade de coisas ‚Äď desde metais como ouro, prata e cobre a consum√≠veis como trigo, caf√© e arroz.

O conceito de moeda-mercadoria (commodity money) envolve o uso de mercadorias como dinheiro. Você provavelmente não conseguiria usar petróleo para comprar algo em uma loja local, mas ao longo da história, tivemos vários exemplos de matérias-primas sendo usadas como moeda de troca.

Por exemplo, o tabaco foi declarado como moeda de troca legal na Virgínia, nos anos 1600. Como Nick Szabo descreve em seu influente trabalho Shelling Out: The Origins of Money, tribos nativas americanas usavam wampum (acessórios feitos de conchas de moluscos) e outras conchas como meio de troca. Como o tabaco na Virgínia, essa mercadoria também foi adotada como moeda legal durante décadas.

Aparentemente, a negociação de commodities pode não parecer muito diferente das economias de escambo. Afinal, se você tem um livro e o oferece em troca de arroz, não seria essencialmente a mesma coisa?

De forma funcional, sim, mas a moeda-mercadoria atua como um¬†meio de troca. Nesse cen√°rio, voc√™ teria a expectativa de que o arroz fosse amplamente aceito como meio de pagamento de bens ou servi√ßos. Portanto, diferentemente das economias de escambo, nas quais voc√™ troca bens ou servi√ßos por outros bens ou servi√ßos, o arroz seria um meio de troca aceito em v√°rias outras negocia√ß√Ķes.
Portanto, voc√™ estaria inclinado a calcular o valor do seu livro, com base no que voc√™ poderia comprar com arroz. Voc√™ aceita arroz, n√£o necessariamente porque vai com√™-lo, mas porque pode troc√°-lo por outros produtos. Se a mercadoria em quest√£o √© prol√≠fica, ela tamb√©m pode servir como uma¬†unidade de conta ‚Äď algo que voc√™ usa para avaliar o pre√ßo de outros bens. Nesse cen√°rio, a quantia que voc√™ paga por um caf√© poderia ser medida em quilogramas de arroz.
A moeda-mercadoria soluciona o problema de coincidência de desejos que existe no escambo. Isso ocorre porque você pode aceitar o pagamento em moeda-mercadoria e usá-la em outra negociação posterior.
Metais preciosos, como ouro e prata, s√£o talvez as formas mais conhecidas de moeda-mercadoria. O ouro persistiu nas civiliza√ß√Ķes, usado como dinheiro e como metal industrial. Ainda hoje, moedas e barras de ouro s√£o consideradas excelentes reservas de valor. Investidores depositam suas riquezas em metais preciosos para poder acess√°-las posteriormente. Existem muitas raz√Ķes pelas quais o ouro √© t√£o valorizado ‚Äď discutimos sobre as fun√ß√Ķes do dinheiro que o ouro cumpre no artigo¬†O Bitcoin √© uma Reserva de Valor?

As commodities não desapareceram totalmente. No entanto, como moedas, elas foram amplamente substituídas por outras formas de dinheiro.


Dinheiro representativo

A moeda-mercadoria foi certamente uma melhoria em relação ao sistema de escambo, mas ainda apresenta desvantagens, principalmente se considerarmos o nível de conveniência. Embora você possa colocar um punhado de moedas de ouro e prata nos bolsos e usá-las para fazer compras, esse conceito não é válido para uso em escalas maiores. 

Atualmente, você se imagina fazendo compras de maior valor usando moedas? Para se ter uma ideia, se você quiser comprar um bitcoin por 8.000 euros, precisaria carregar aproximadamente 60 kg de moedas de 1 euro.

Depois da moeda-mercadoria, veio o dinheiro representativo ‚Äď uma alternativa muito mais port√°til, atrelada √†s commodities/mercadorias. O dinheiro representativo surgiu em diferentes lugares do mundo, em diferentes momentos. Essencialmente, envolve a exist√™ncia de um emissor central, que produz certificados que podem ser resgatados por uma certa quantidade de uma mercadoria.¬†

Em vez de carregar prata no bolso, você pode levar pedaços de papel que comprovam sua posse de prata. A qualquer momento, você pode ir ao emissor e trocar os papeis por prata real. Como alternativa, você pode entregá-lo a alguém como pagamento e ele mesmo poderá fazer essa troca. Se você conhece as stablecoins, é essencialmente o mesmo princípio.
Houveram casos de empresas privadas que emitiram moedas-mercadoria, mas isso foi feito em uma escala muito maior pelos bancos centrais. Você provavelmente conhece o Gold Standard (padrão-ouro), uma política adotada por muitos governos em que as moedas nacionais eram atreladas ao ouro. Parece algo distante do sistema em vigor atual, mas há menos de um século, você podia levar dinheiro em papel ao banco e trocá-lo por metais preciosos.
Do ponto de vista econ√īmico, isso trouxe alguns benef√≠cios importantes. Tanto que¬†o padr√£o-ouro ainda √© um termo usado para descrever algo que supera outras alternativas. A primeira vantagem foi que, apesar do aumento da interven√ß√£o do governo, a moeda n√£o foi degradada pela¬†infla√ß√£o. Os governos n√£o podiam emitir notas que excedessem a quantia que estavam mantendo ‚Äď pelo menos em tese. Infelizmente, foi f√°cil (e interessante) para os bancos, operar uma pol√≠tica de¬†reserva fracionada, onde eles criaram mais notas do que ouro em estoque.

O padrão-ouro permitia que as pessoas negociassem com ouro, sem a inconveniência de carregar barras de ouro ou de dividi-las para fazer compras.

Outra vantagem desse sistema monetário é que o ouro sempre foi reconhecido internacionalmente. Se as economias domésticas de um governo fossem baseadas no ouro, os países com a política do padrão-ouro poderiam negociar com mais facilidade um recurso que é valorizado globalmente.



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Dinheiro fiduci√°rio

O dinheiro representativo n√£o √© mais a forma dominante de dinheiro. A morte do padr√£o-ouro levou √† ado√ß√£o global de um novo tipo de moeda ‚Äď uma moeda que n√£o tem rela√ß√£o com as commodities.¬†

Resumidamente, fiat (moeda fiduci√°ria) √© dinheiro emitido por um governo (o termo fiat¬† deriva do latim e significa¬†por decreto). D√≥lares americanos, pesos mexicanos, ienes japoneses e r√ļpias indianas s√£o exemplos de moedas fiduci√°rias usadas atualmente.

O valor da moeda fiduci√°ria √© altamente dependente das decis√Ķes de governos e bancos centrais. Essencialmente, uma nota fiduci√°ria √© um peda√ßo de papel que s√≥ tem valor porque os √≥rg√£os governamentais afirmam isso.

Vale notar que, embora o decreto na forma de papel-moeda seja, às vezes, considerado uma invenção recente, ele se originou na China no século XI. Também foi usado na Europa e nas Américas do século XVII.

Ao contr√°rio dos outros tipos de dinheiro que discutimos at√© agora, a moeda fiduci√°ria n√£o tem um elemento de escassez. √Č trivial produzir papel-moeda a partir de materiais dispon√≠veis, ao contr√°rio de commodities agr√≠colas que levam tempo para crescer ou metais preciosos que precisam ser encontrados e extra√≠dos. Sem essas limita√ß√Ķes, entidades como a Federal Reserve podem criar dinheiro "do nada".

Dependendo do ponto de vista, essa é a maior força ou a maior fraqueza do dinheiro fiduciário. Os defensores dos sistemas de moeda fiduciária argumentam que a capacidade de inflacionar a oferta monetária oferece aos governos mais flexibilidade para enfrentar crises financeiras ou gerenciar a economia em geral. Além disso, por controlar o mercado monetário e as taxas de juros, o governo tem um alto grau de controle sobre os sistemas financeiros do país.
Curiosamente, as pessoas que s√£o contr√°rias √† moeda fiduci√°ria, apresentam o mesmo argumento, embora sob outra perspectiva. Uma das principais cr√≠ticas √†¬†pol√≠tica monet√°ria do governo √© que a¬†infla√ß√£o, corr√≥i lentamente a riqueza de quem armazena moedas fiduci√°rias. Esses sistemas pol√≠ticos podem passar por per√≠odos agressivos de infla√ß√£o (hiperinfla√ß√£o), que essencialmente desvaloriza a moeda completamente e pode causar enormes danos econ√īmicos e sociais.


Qual a categoria das criptomoedas?

O Bitcoin foi rotulado tanto como dinheiro digital, quanto como ouro digital. Por um lado, o Bitcoin apresenta muitas das características do dinheiro vistas em commodities (fungibilidade, divisibilidade, portabilidade), tornando-o um meio ideal de troca.
Por outro lado, o Bitcoin é cada vez mais valorizado como reserva de valor. Os defensores do Bitcoin como ouro digital acreditam que sua política de fornecimento de deflação (ou melhor, desinflação) o ajuda a reter o poder de compra ao longo do tempo. Isso contrasta fortemente com o dinheiro inflacionário como o dólar americano, que pode ser desvalorizado a critério do sistema da Federal Reserve.

Superficialmente, as criptomoedas parecem se enquadrar na categoria de moeda-mercadoria (commodity money). Embora elas não tenham nenhum uso fora de seus protocolos, eles não são atreladas à nada nem emitidas por entidades governamentais. O valor do dinheiro, no que diz respeito às moedas digitais, é definido através da avaliação dada do mercado livre.


Considera√ß√Ķes finais

Conforme discutido, o dinheiro apresenta diversas formas. Muitos est√£o acostumados a pensar em valor considerando suas¬†moedas fiduci√°rias nacionais, mas elas s√£o inven√ß√Ķes relativamente recentes. Os aplicativos de pagamento que voc√™ usa hoje s√£o o resultado de milhares de anos de evolu√ß√£o dos sistemas monet√°rios.
As criptomoedas são um experimento promissor no próximo capítulo da história do dinheiro. Se o Bitcoin ou outras criptomoedas fossem amplamente adotadas, elas seriam os primeiros exemplos reais de commodities digitais. Só o tempo poderá dizer se as criptomoedas serão capazes de substituir a atual supremacia das moedas fiduciárias.